Rock e Direitos Humanos: System of a Down e o genocídio armênio

2018.04.24 System of a Down e o genocídio armênio

(Texto originalmente publicado no jornal O Visto.)

A chuva caía na fria noite de Yerevan, na Armênia. Ainda assim, uma multidão de aproximadamente 50 mil pessoas aguardava na Praça Central. Antes de qualquer acorde, a imagem em preto e branco de uma criança com as mãos nos olhos é transmitida nos telões, logo acompanhada por uma melodia suave, étnica… armênia. Logo a imagem é alterada e um emaranhado de palavras, imagens e vozes começa a narrar a triste história daquele considerado o primeiro genocídio do século XX. E então, a banda System of a Down sobe ao palco, entoando a significativa Holy Mountains (“Montanhas sagradas”) – uma de suas várias canções sobre conflitos internacionais e o genocídio armênio.

Fundada em 1992 por dois americanos, descentes de armênios (Serj Tankian e Daron Malakian), é apenas em 2001 que a banda System of a Down alcançará os holofotes e virará uma das mais famosas bandas do rock americano, com suas letras ácidas permeadas de denúncias e críticas políticas.

Utilizando seu lugar de destaque nos meios de comunicação, a banda milita incessantemente pelo reconhecimento do genocídio armênio: uma tentativa do Império Otomano, atual Turquia, de eliminar todos os povos não turcos habitantes de suas terras, no intuito de preservar suas fronteiras geográficas. No caso dos armênios, o massacre foi intenso pois ocupavam uma região estrategicamente importante, entre a Rússia e o Império Otomano – localização interessante, em tempos de guerra.

Em 24 de abril de 1915, líderes e intelectuais armênios foram presos, e diversos cidadãos armênios foram deportados, obrigados a abandonar suas casas em longas caminhadas rumo a regiões desérticas, abatidos pela fome, pela doença e pelas armas e fuzis das próprias tropas Otomanas. Dentre os civis, estavam os quatro avós do vocalista Serj Tankian, sendo que seu avô Stepan Haytayan, foi o responsável por preservar esta dolorosa memória, transmitindo ao artista os horrores sofridos por seu povo.

Apesar deste sangrento episódio, responsável pela quase aniquilação dos hábitos e práticas culturais de todo um povo, a comunidade internacional pouco tem feito para levar justiça aos armênios. Atualmente, apenas vinte e dois países reconhecem o ocorrido como um verdadeiro genocídio; os demais, evitam a palavra, entendendo o fato como simples consequência da Primeira Guerra Mundial. A Turquia, sucessora do Império Otomano, pune juridicamente qualquer um que ousar mencionar o genocídio armênio; os Estados Unidos desconversam, pois a Turquia é um aliado chave na OTAN. O Brasil, covardemente, também integra a lista dos que se negam a reconhecer o genocídio, ao contrário de países como a Alemanha, Canadá, Itália e França, que já reconhecem o fato como o massacre que realmente foi.

Neste cenário, a militância da banda System of a Down torna-se um elemento poderoso, tanto para conscientizar quanto para pressionar governos. Em 2006, Carla Garapedian produziu o documentário Screamers (“Os que gritam”, em tradução livre), que aborda situações como o Holocausto Judeu, o genocídio de Ruanda, e, claro, o genocídio armênio. Com participação dos membros da banda, militantes e atores governamentais, o documentário demonstra como o rock do System of a Down consegue dar voz aos 1,5 milhões de armênios mortos durante o genocídio.

Alguns fãs, jovens, afirmam que nunca ouviram falar do acontecimento nem mesmo na escola, tendo sua consciência crítica despertada por versos como “A whole race Genocide / Taken away all of our pride” (“Um genocídio de uma nação inteira / Levou embora todo nosso orgulho”), presentes na canção P.L.U.C.K. (sigla para Politic, lie, unholy, coward, killer, que significa “política, mentira, profana, covarde e assassina”) e ainda “Why don’t presidents fight the war? / Why do they always send the poor?” (“Por que os presidentes não lutam na guerra? Por que eles sempre enviam os pobres?”, tradução livre), na música B.Y.O.B. (sigla para Bring your own bombs“, “traga suas próprias bombas”, em português).

Além de manter viva a memória do ocorrido, os integrantes exercem pressão política, escrevendo cartas e se reunindo com políticos, sempre salientando a necessidade do reconhecimento do genocídio armênio. Em 2005, por exemplo, Serj Tankian escreveu e se encontrou com Dennis Hastert, então presidente da Câmara dos Representantes dos EUA, para que apoiasse a causa; em 2013, escreveu abertamente para o presidente da Armênia, Serzh Sarkisian, manifestando-se contra a corrupção e injustiça cometidos pelo governo.

Interessante destacar que apesar de terem diversos fãs na Turquia, a banda já foi impedida de se apresentar no país, por motivos óbvios. Em 2015, eles realizaram uma histórica turnê denominada Wake Up the Souls (“Acorde as almas”), por ocasião do centenário do genocídio armênio, cujo ápice foi o show na Armênia, narrado no início deste texto.

Ao abrirem o show com a simbólica canção Holy Mountais, referência às montanhas tomadas da Armênia durante o genocídio, a conotação política do evento tornava-se evidente. Para os que ainda possuíam dúvidas sobre o alcance social e político do rock, especialmente no que se refere à luta pela promoção e efetivação dos direitos humanos, a banda bradou: “Isso não é um show de rock. Isso é Revenga (título de uma de suas músicas que brinca com a palavra “vingança”, em inglês)”.

Pra terminar, dá uma olhada no show que a banda fez na Armênia em 2015:

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Um comentário sobre “Rock e Direitos Humanos: System of a Down e o genocídio armênio

  1. A banda System of Down brada por direitos humanos! Se o comportamento de seus componentes fosse analisado, quanto a sua produção musical, pela nossa Constituição Federal (1988), artigo 5º, inciso IX, eles teriam sua obra e posições ideológicas asseguradas, pois “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença.” Porém, na narrativa acima, analisando-se juridicamente sob ótica do Código Penal, ao bradarem que “Isso não é um show de rock. Isso é Revenga” (título de uma de suas músicas que brinca com a palavra “vingança”, em inglês), justamente frisando a palavra “Vingança”, poderiam estar cometendo crimes enquadrados no artigo 147 (CP), “ameaçar alguém por palavra, escrito ou gesto, ou qualquer outro meio simbólico, de causar mal injusto e grave, bem como causar temor na vítima” (representada, neste caso, como a nação ou os governantes da Turquia), e/ou no artigo 286 (CP), “incitar, publicamente a prática de crime”.

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