Empatia e os seis caminhos da dor

2016.02.24 Empatia e os seis caminhos da dor

Durante um ciclo de palestras do qual participai em 2015, na Federal do Rio Grande do Sul, eu e os demais participantes discutimos sobre o ensino de Direitos Humanos, essa categoria de direitos tão incompreendida e estigmatizada.

Afinal, como esperar que o aluno, consumidor ativo das mais diversas mídias sociais, possa compreender a necessidade dos direitos humanos, que, ao contrário do senso comum, não se restringem apenas à proteção do “direito dos mano”, mas de TODO e QUALQUER ser… humano?

Afirmei naquela oportunidade, e volto a reafirmar neste post que a arte (e com arte me refiro a toda manifestação cultural, dos quadrinhos às obras de Shakespeare, passando pelo funk e pelos sucessos hollywoodianos) é uma grande aliada nesse desafio (falo mais sobre isso aqui). Quantos de nós choramos com a morte do Mufasa, no Rei Leão, e quantos se sensibilizaram com a dor da Malévola, na nova adaptação da Disney? Os exemplos são inúmeros e é disso que venho a falar neste post.

Recentemente, aceitei o desafio e comecei a assistir Naruto e seus 7264723479 episódios. O enredo me encantou logo de cara e na medida em que eu avançava na história, só crescia a minha certeza de que Naruto está LONGE de ser um “desenho para crianças”. A seriedade dos temas, os dramas e tragédias dos personagens, a complexidade da trama e a inexistência de vilões desmotivados (TODOS os grandes vilões têm uma história em seu passado, que apesar de NÃO JUSTIFICAR suas atitudes, as explica) são elementos únicos para se abordar temas como direitos humanos, moral e justiça, a partir de um viés diferenciado.

E nenhum dos enredos, a meu ver, é tão promissor quanto o do jovem Nagato, com seus Seis Caminhos da Dor. (Aviso: spoilers a frente para quem não viu o anime.)

Resumidamente, Nagato é um órfão de guerra. Seus pais foram mortos em sua presença e desde então ele é lançado à dura realidade de uma nação pobre em confronto com nações maiores. Faz grandes amizades e até aprende ninjutsu com o grande mestre Jiraya (que também irá treinar Naruto) para se defender. Talentoso e muito poderoso, ele e seus amigos criam uma organização cujo objetivo é trazer paz e segurança para a sua vila, evitando a ocorrência de novas guerras. O mundo, porém, não é tão perfeito assim e após uma série de desventuras (o governante da vila passa a ver o grupo como uma ameaça e acaba matando o melhor amigo de Nagato), ele decide que a paz só será alcançável a partir da empatia e da compreensão: mais do que ter pena ou solidariedade, é preciso compreender a dor alheia, fazendo o outro sentir uma dor similar.

E é assim que um dos grandes vilões da série é criado. Desenvolvendo uma técnica por meio da qual ele basicamente pode se dividir em seis, Nagato adota a alcunha de Pain (“Dor”). Tal fato é uma remissão aos seis mundos espirituais nos quais todo indivíduo repete o ciclo do nascimento, morte e transmigração.

No anime, Pain são seus seis corpos, cada qual dotado de uma habilidade especial, e é por meio dos seis que o mundo conhecerá a dor de Nagato, que leva ao mundo morte e destruição, antes de ser confrontado pelo herói da série, Naruto. Nagato desperta o ódio do personagem principal ao dizimar sua vila, matar e ferir gravemente muitos de seus amigos.

Quando finalmente se encontram, Nagato está preparado para encarar a vingança do protagonista, o que daria continuidade ao ciclo de ódio de uma humanidade podre. Todavia, ele decide contar sua história a Naruto e perguntar a ele o que ele faria para quebrar este ciclo, propagado pela ganância e incompreensão humanas. Além disso, Nagato afirma que a paz das grandes nações (uma delas, lar do próprio Naruto) só foi conquistada às custas do sangue e sacrifício dos pequenos países (como o país de Nagato) e que o ódio e a guerra sempre irão existir, pois inerentes aos homem. Por isso ele quer instituir um novo mundo, no qual todos irão compreender o significado da dor alheia.

No fundo, Nagato e Naruto tem o mesmo objetivo: a paz. Mas a resposta deste último é enfática: ele irá seguir os passos do mestre Jiraya e promoverá uma paz verdadeira a partir da quebra deste ciclo naturalizado. Dará a outra face. É preciso compreender (e não fazer com que sintam) a dor do outro, é preciso ter sensibilidade… é preciso ter empatia.

No fim, Naruto mostra a Nagato um romance escrito pelo mestre dos dois, cujo personagem principal, também chamado Naruto, era a representação do jovem e idealista Nagato. Era com este livro que o mestre Jiraya tentava sensibilizar as pessoas e “mudar o mundo”, no intuito de quebrar todo o ciclo de ódio. Naruto decide não perdoá-lo, mas deixá-lo viver, mesmo porque ele também conheceu a dor (fora um órfão visto como aberração por grande parte da sua vida). O vilão, então, se redime e num ato de auto-sacrifício repara (ou ao menos tenta reparar) os malefícios que havia causado.

É uma história fictícia e tem lá seu quê de romantização. Mas a justiça aos moldes de Nagato não deixa de ser evocada sempre que se fala em direitos humanos.

É preciso ter em mente que quando falamos em direitos humanos, também falamos em respeito, liberdade e autonomia. Falamos em mulheres, em negros, em índios, idosos e crianças. A questão criminal é apenas uma, e talvez a mais desafiadora, das faces desta categoria de direitos. Mas tão importante quanto é tentar compreender as vítimas de racismo, homofobia, machismo e misoginia. Sem diminuir sua dor. Sem chamar de “mimimi” aquilo que não compreendemos.

Não estou aqui afirmando que todos devemos ser como Naruto, Nagato ou Jiraya, mas sim de que este é um viés que deveria ser apresentado a todos, especialmente àqueles que se preparam para atuar com justiça. Como um advogado homofóbico irá defender os interesses de um cliente gay? Como um policial misógino irá atender aos chamados de violência doméstica contra a mulher?

A arte, seja a literatura de Jiraya, o anime Naruto, ou O Processo, de Kafka, pode nos auxiliar a conhecer e pensar sobre estes problemas a partir de uma perspectiva nova e inusitada. Não lhe cabe o papel de “salvadora do mundo” nem será capaz de invadir as cabeças mais duras e intransigentes, mas será capaz de fazer seu expectador pensar. E a partir do pensamento consciente, quem sabe, rever pequenas atitudes e quebrar alguns ciclos de ódio.

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4 comentários sobre “Empatia e os seis caminhos da dor

  1. Eu acho que realmente a arte é uma maneira excelente de tocar corações. Ela vai muito além da razão para conectar as pessoas. Ela carrega emoção, carrega empatia. Empatia em um mundo onde ninguém entende ninguém. A trajetória de Nagato e de Itachi marcaram profundamente minha vida. Eu não era muito empática. Aliás, eu era uma pessoa muito isolada. Foi entendendo a dor de Nagato, que eu entendi o que a dor é e isso se conectou com a minha visão sobre mudar o mundo. Itachi foi para mim um exemplo de virtude. Alguém que tomou as decisões mais difíceis e enfrentou as consequências delas de cabeça erguida.
    Segundo o budismo, a dor é uma das constantes universais da vida e eles acreditam que podem se libertar da dor atingindo o Nirvana. Mas o Nirvana é a negação de qualquer desejo, de qualquer anseio de realização em vida. Aliás, o Nirvana termina com o ciclo de transmigração de Samsara, ou seja, quem o atinge não reencarna mais. Ou melhor, quem o atinge, morre. O Nirvana é uma morte iluminada, na verdade, a aceitação da morte de todas as coisas, não racionalmente e sim emocionalmente. Um estado realmente transcendental. Para alguém que chegou ao Nirvana, a própria crença na transmigração perde o sentido. Porém o que o budismo propõe é uma negação da vida comum e mundana, com os seus desejos e suas consequentes tristezas. Acredito que desejar pouco é realmente uma grande virtude, mas não desejar nada é como morrer. E não vejo sentido em atingir um estado como o Nirvana, se os outros não o atingirem. Eu acho que em meio a tanto sofrimento, fazer algo para aliviar o sofrimento de outras pessoas vale mais a pena do que simplesmente fugir de todo o sofrimento da vida em direção a algo que transcenda esta vida. Aliviar os sofrimentos uns dos outros e tentar chegar neste estado de iluminação juntos me parece mais importante, assim como os Bodhisattvas (como a Yuan Ti, a deusa de mil mãos que o Hashrama invoca). A dor não morre, ela precisa existir para que haja o entendimento desta dor, sendo que no entendimento desta dor no outro, leva a humanidade a transcender seus simples egos e a criar uma verdadeira identidade coletiva, ao contrário de todos os projetos de utopia que apenas pensam em sacrificar almas para a sua realização. O verdadeiro transcendentalismo não transcende a nossa existência, o verdadeiro transcendentalismo é entender a dor do outro como se entende a de si mesmo. Isso se chama amor.

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  2. Fantástico!!!

    Passei manhãs, tardes e noites dos meus 11 anos de idade até os 14 anos assistindo Naruto e confesso que seu post me fez ter uma perspectiva sobre o anime que jamais havia pensado (e olha que já imaginei a realidade do Anime no mundo real muitas vezes).

    Mas o que você deixou explícito aqui é muito mais do que sonhei em meus ideais aos meus 14 anos. “A revolta, o ódio e a vingança geralmente são sentimentos criados quando os grandes atacam os pequenos e saem impunes.” Isso é evidente no nosso cenário atual mundial, a exemplo, não justificando o ato, mas compreendendo as motivações, os terroristas que atacaram o jornal Charlie Hebdo na França. É relembrado o ataque aos grandes, aos evidentes, porém abafado os gritos da intolerância religiosa e xenofobia sofrida pelos muçulmanos na França (assim como aconteceu com Pain e sua nação, que, sem apoio, amparo e justiça, escolheu a vingança como arma maior contra o grande sistema).

    Assim também podemos lembrar a escravidão, exploração e roubo do grande Estados Unidos da América contra outros países (“aldeias”, se fosse no anime), para fortalecerem seu grande e maior sistema capitalista do mundo. Empresas americanas como a Nike, por exemplo, que usa/usou a exploração infantil na China para fabricação de seus tênis; os grandes escândalos de manipulação e guerras incentivado e começada pelo Mundo Livre. A atual guerra no Oriente Médio, a exploração e escravidão africana, a exploração e escravidão indígena e das terras brasileiras, entre tantas outras nações pobres (de capital ou conhecimento), entre tantos outros Pains…

    Curtido por 4 pessoas

  3. O tema dos Direitos Humanos é sempre bem polêmico, não? rs

    É bem complicado lidar com determinados tipos de crime e concordo que não dá pra ficar no maniqueísmo que nos apresentam diariamente: o criminoso romantizado versus o bandido-demônio encarnado. Dois estereótipos bem presentes e nunca destrinchados. O grande problema, a meu ver, é compreender que no mundo real é perfeitamente possível que essas duas figuras coexistam e ainda dividam espaço com 832947932874 variações diferentes, afinal, entre o branco e o preto existem, pelo menos, cinquenta tons de cinza, rsrsrs.

    Já a questão do Nagato em si é que ele é um personagem trágico. Os homens que mataram sua família o fizeram por engano… era guerra, eles foram confundidos com guerreiros (eram civis) e a tragédia foi feita… Naruto tem esse dom de dramatizar, de mostrar vários “e se’s”, várias possibilidades, rs. Anime muito rico para ser usado em sala de aula, para refletir e debater! ^^

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  4. Adoro a premissa dos direitos humanos (para os humanos e até animais). Mas pasmo ante a prática de ativistas dos direitos humanos difundida pela mídia, onde parecem lembrar desses direitos somente a favor dos criminosos; simplesmente não desce tratar humanamente “demônios” que só possuem o corpo humano, mas são completamente desumanos. Em muitos casos, eles não deixam suas vítimas vivas para que possam dar a outra face.

    Claro que nem todo criminoso é um monstro. Já fui assaltado três vezes e nada de relevante me aconteceu. Na última vez até fiz “amizade” com os manos. Não desejo nenhum mal a eles, pois não me causaram nenhum mal grave, não me machucaram nem me ofenderam. Eram “bons” ladrões. Quem entra para o mundo do crime porque “não teve outra oportunidade na vida” não precisa ser cruel.

    Mas considero difícil, quiça injusto, dar a outra face a um estuprador, um sádico, um assassino ou um corrupto que desvia recursos da saúde pública, por exemplo. Prefiro lhes ensinar os seis caminhos da dor. Foi o caminho que escolheram impingir aos outros que não tiveram escolha. Não dá para relegar o castigo a uma justiça divina. Caso contrário, por que estudar Direito Penal?

    Obviamente, não defendo uma pena severa ou capital a qualquer crime. Deve haver um juízo de proporcionalidade entre crime e sua pena. E o castigo, qualquer que seja, deve ser direcionado somente àquele que cometeu o mal. A fúria de Nagato foi distribuída indistintamente e isso o transformou em vilão. Tivesse sido direcionada somente àqueles que mataram sua família e amigos, Nagato seria um herói.

    Curtido por 7 pessoas

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