David Bowie: O Mutatis Mutandis do Rock

2016.01.13 David Bowie o mutatis mutandis do rock and roll

Fala, galera!

O primeiro post de 2016 é uma humilde tentativa de homenagear o gênio David Bowie. (Rogo, entretanto, que de alguma forma esta pseudobiografia e a referência jurídica em latim aqui combinadas consigam fazer sentido também fora da minha cabeça.)

Bowie é o nome artístico de David Robert Jones. Nascido na capital inglesa em 8 de janeiro de 1947, faleceu no último domingo, dia 10, dois dias após completar 69 anos de idade, em Manhattan, New York, depois de lutar contra um câncer no fígado durante os últimos dezoito meses.

Esse cara foi um grande músico, considerado um dos mais inovadores e influentes da história do pop e do rock, conhecido pela sua capacidade de se reinventar continuamente durante cinco décadas de fama!

Embora tenha começado cedo sua carreira musical, seu primeiro sucesso foi em 1969, ano em que lançou Space Oddity, coincidindo com a chegada do homem à Lua. A música ficou em 5º lugar no Reino Unido. Observação: não sou numerólogo (sou detalhista), mas ele morreu com a idade que o século XX tinha quando Space Oddity o tornou famoso.

Com uma prolífica carreira, A partir de 1970, Bowie lançou álbuns de rock experimental. Man Who Sold the World (1970) e Hunky Dory (1971) foram elogiados pela crítica e público, mas em 1972 lançou um dos maiores álbuns da história do rock e de sua carreira: The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, um álbum conceitual através do qual Bowie apresentou seu alter ego andrógino Ziggy Stardust e sua música de mesmo nome, um enorme sucesso juntamente com Starman (que inspirou a música Astronauta de Mármore da banda nacional Nenhum de Nós). Eram os tempos do glam rock. O álbum Aladdin Sane (1973) levou Ziggy aos EUA.

Seguiu-se o álbum Diamond Dogs (1974) e seu grande sucesso nos EUA, Fame, do álbum Young Americans, que escreveu em parceria com John Lennon.

Assumindo outra personagem, Thin White Duke (“um homem vazio que cantava canções de amor com uma intensidade desesperada, enquanto nada sentia“), lançou o álbum Station to Station (1977).

Também digna de nota foi a Trilogia de Berlim, três elogiadíssimos álbuns introspectivos que subiram ao topo das paradas britânicas (Low, “Heroes”Lodger, entre 1977 e 1979).

Ashes to Ashes, do álbum de 1980 Scary Monsters (and Super Creeps), alçou o primeiro lugar no Reino Unido e semeou um novo movimento chamado New Romanticism.

Ainda nos anos oitenta, os pontos altos da carreira de Bowie foram a canção Let’s Dance (1983) e a parceria com o Queen na música Under Pressure.

Ao longo dos anos 1990 e 2000, Bowie continuou a experimentar novos estilos musicais, incluindo os gêneros industrial, drum and bass e adult contemporary.

Após os ataques de 11 de setembro de 2001 nos EUA, lançou o sombrio (e muito elogiado) álbum Heathen (2002). Depois veio o Reality, misturando melancolia e humor, que rendeu uma turnê em 2003 e 2004; foi seu último trabalho de estúdio, pois sofreu um infarto na turnê e resolveu se aposentar, apesar de uma ou outra apresentação ao vivo com outros artistas posteriormente.

Após dez anos, David Bowie voltou a lançar um disco, The Next Day (2013), e na última sexta-feira, dia do seu 69º aniversário, lançou seu epitáfio: ★ (Blackstar), aclamado pela crítica como uma obra-prima. Assim como sua vida, fez de sua própria morte arte.

Bowie também atuou nos teatros e em alguns filmes, como The Man Who Fell to Earth (1976), no qual interpretou um alienígena de um planeta moribundo em seu primeiro papel principal num grande filme, Christiane F. – Wir Kinder vom Bahnhof Zoo (1981) e Zoolander (2001), interpretando a si mesmo em ambos, interpretou um vampiro em Fome de Viver (1983), foi Pôncio Pilatos em A Última Tentação de Cristo (1988), interpretou Jareth, o rei dos goblins, no filme Labirinto – A Magia do Tempo (1986) e, entre outros, também personificou Nikola Tesla em O Grande Truque (2006).

O engraçado é que conheci David Bowie indiretamente e paulatinamente, primeiro sua melodia na versão brasileira de Starman (Astronauta de Mármore). Depois, um de seus muitos rostos (Jareth) no filme Labirinto. E, finalmente, sua voz em Under Pressure, em consonância com a de Freddie Mercury. Somente depois desses três prelúdios que conheci suas várias versões de si mesmo como um todo (especialmente sua música).

Além de sua influência no mundo da música, David Bowie também influenciou movimentos sociais, como a libertação gay, a recriação de uma nova juventude independente, novos modos de se vestir na cena musical e por aí vai.

Por algumas vezes, David Bowie declarou que era gay, bissexual e, mutatis mutandis, desmentiu depois.

Essa capacidade de mudanças de estilo musical e por encarnar personagens temáticos em alguns de seus álbuns rendeu a David Bowie a alcunha de “Camaleão do Rock”.

Os camaleões são conhecidos principalmente pela capacidade fantástica de mudar de cor. Isso serve para sinalização social e fisiológica do camaleão, em reações a temperatura e outras condições, bem como para camuflagem. Muitos camaleões assumem cores escuras quando irritados ou para intimidar adversários e os machos exibem padrões multicoloridos leves para cortejar as fêmeas.

A expressão latina mutatis mutandis, bastante conhecida no meio jurídico, significa literalmente “mudar o que tem de ser mudado”, ou “com as mudanças necessárias” ou ainda “guardadas as devidas proporções” (foi o que intencionei dizer mais acima ao empregar o termo para me referir ao camaleão roqueiro). A expressão ainda é utilizada para se fazer comparações e analogias.

Essencialmente, a expressão indica que novos termos foram inseridos (como em um contrato ou decisão judicial) em substituição a outros, alertando que se deve notar qualquer diferença a partir do original e levá-la em consideração. Foi o que sempre ocorreu com Bowie e sua música: nunca parado, sempre em mudança, sempre inovando e levando suas alterações em consideração.

Mutatis mutandis, o Direito e David Bowie possuem ambos um caráter camaleônico, haja vista suas constantes reinvenções e diversas versões.

Enquanto houver sociedade, o Direito continuará a se transformar. Enquanto houver música, o Camaleão do Rock continuará influenciando gerações.

Ziggy, sua última metamorfose está completa. Agora vá! Junte-se aos outros gênios que já foram para o palco superior. There’s a Starman waiting for you in the sky.

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6 comentários sobre “David Bowie: O Mutatis Mutandis do Rock

  1. Fantástica leitura, como sempre!
    David Bowie era um cara de inteligência acima da média! Suas canções e produções deixam muito claro o tamanho de sua capacidade intelectual, mas o que pouquíssimas pessoas sabem é que ele também era um empreendedor financeiro, chamado de “empresário do século 21” pelo “The New York Times”, em 2002.
    Na metade dos anos 90, Bowie foi o primeiro cantor a emitir títulos lastreados, isto é, títulos de garantia, nos direitos autorais das vendas de seus discos; ele conseguiu 55 milhões de dólares na emissão dos “Bowie Bonds” em 1997, prometendo uma taxa de 7,9% ao ano de remuneração, sendo que na época um título com as mesmas características dos títulos de Bowie tinha uma taxa de 6,37% ao ano!
    Tudo isso sem uma grande necessidade, pois sua carreira era bem consolidada, como mostrou o seu excelente texto, Super. E com os milhões que conseguiu, comprou a parte do ex-empresário e passou a ter controle total sobre sua música.
    Confirmando sua capacidade de inovação.

    Curtido por 5 pessoas

    1. Que interessante, Sara! Desconhecia essa informação sobre Bowie. De fato, esse dado corrobora com essa habilidade dele em se reinventar e “mudar o que tem que ser mudado“. Uma informação valiosa, que só poderia ter sido compartilhada por um membro da família Wayne. (Tenho a vaga lembrança de que seu parente, o Bruce, já fez algo parecido em relação às ações da Wayne Enterprises.)

      Curtido por 4 pessoas

  2. Magnânima homenagem. Criativa e sensível no grau certo da sabedoria.

    Explicitou o significado da expressão latina “mutatis mutandis” no contexto jurídico e ainda traduziu o artista David Bowie em sua representação artística cultural.

    O texto veio ao encontro de outras interpretações como a do cronista Nelson Motta, que considerava errôneo chamar Bowie de camaleão, porque ele não roubava a cor do ambiente, e sim “irradiava suas próprias cores”, “nunca era igual, ele era sempre diferente”, ou seja, era o próprio cantor que provocava e transformava gerações.

    Curtido por 6 pessoas

    1. Obrigado, Higia! Fico feliz que tenha gostado.

      Quanto às várias interpretações sobre David Bowie, acho que uma ótima definição do Mutatis Mutandis do Rock pode ser encontrada nas palavras da música de outro gênio: “Eu prefiro seeeeeeer / Essa metamorfose ambulante

      Curtido por 4 pessoas

      1. Dada a deixa, quero falar sobre o grande gênio Raul Seixas, cuja carreira, assim como Bowie, se faz de inspiração para nossa geração e além! E como o Camaleão do Rock, sobre Metamorfose Ambulante também cabe raciocínio jurídico!

        Preferir ser uma metamorfose ambulante a ter uma velha opinião formada sobre tudo pode inspirar nosso Legislativo no seu dever de acompanhar a evolução da sociedade e, consequentemente, dos nossos direito e deveres, inovando o ordenamento jurídico. Com essa evolução, o Legislativo tem em mãos o dever de inspirar uma sociedade mais justa, consciente e responsável.

        O mesmo pode ser cantado pelo Judiciário, dado que cada caso é um caso e uma “opinião formada sobre tudo” pode impor injustiças aos jurisdicionados. Este Poder, ao rever decisões através de recursos, também pode se inspirar nos seguintes versos: “Eu vou desdizer / Aquilo tudo que te disse antes

        Já o Executivo poderia cantar ao contrário deste trecho: “É chato chegar a um objetivo num instante” Aplicando bem os recursos públicos e o princípio constitucional da eficiência administrativa, seria possível chegar a vários objetivos num instante.

        Fazer o papel de exemplos para gerações (e quiçá aos Três Poderes) não é tarefa muito fácil, mas isso nossos gênios em questão tiraram de letra!!!

        Um brinde à boa música!!!

        Curtido por 5 pessoas

        1. Viva a boa música!

          Fiquei imaginando uma colaboração musical entre David Bowie e Raul Seixas… Em que pese ambos já terem partido para o palco superior, é mais fácil ocorrer um dueto entre eles do que ver o Executivo cantar (pra valer!) que “é bacana chegar a um objetivo num instante“, destinando os recursos públicos com probidade. Resguardadas as devidas proporções, ou melhor, mutatis mutandis, o mesmo pode ser dito sobre o Legislativo e o Judiciário.

          O princípio da eficiência é um dos mais belos enfeites constitucionais. Foi expressamente introduzido no caput do artigo 37 da Carta Magna através da Emenda Constitucional nº 19, de 4 de junho de 1998, mas antes disso já era trabalhado pela doutrina; até hoje encontra imensa dificuldade de se tornar realidade.

          Curtido por 3 pessoas

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